Número 14 - Belo Horizonte 24/Dezembro/2004

 

 

A farsa do Mercosul

@ Márcio Metzker - 21/12/04

Parece um misto de filme de Pancho Villa, Zapata e Lampião uma reunião de parlamentares do Mercosul, como a que aconteceu na Assembléia Legislativa na segunda semana de dezembro, paralelamente ao encontro de chefes de Estado em Ouro Preto. A começar pelas bravatas proferidas em espanhol por deputados argentinos e senadores paraguaios, passando pelo provincianismo dos parlamentares brasileiros e terminando com a aprovação de propostas secundárias ou periféricas, como a escolha do cavalo crioulo como animal-símbolo do Mercosul.

Ora, o Mercosul é, como o próprio nome diz, uma tentativa de formar um mercado comum entre os quatro países do Cone Sul e buscar fortalecer os interesses comerciais desse bloco, diante das pressões de dominação norte-americana contidas na proposta da Alca e das restrições e subsídios impostos pela União Européia.

Embora repitam o secular discurso visionário de liberdade e união dos povos latino-americanos de Simon Bolívar, sonhado também por Che Guevara, os parlamentares presentes na reunião passaram ao largo da busca de um modelo de mercado comum e priorizaram seus próprios interesses, ou seja, a criação de um Parlamento do Mercosul com as devidas mordomias. Pelo visto, com sede fixa em Punta del Leste, Mar del Plata ou Búzios. Jamais em Assunção, Cubatão ou Teresina.

É forçoso reconhecer que as idiossincrasias nacionais e o preconceito contra os vizinhos sul-americanos estão presentes em todos nós. Não conseguimos levar a sério que um parlamentar paraguaio peça fundos para desenvolver um provedor de computador que sirva para comunicações mais rápidas no universo do Mercosul, se para nós a imagem dos paraguaios está ligada à falsificação de produtos eletrônicos e ao contrabando.

Tampouco cremos na sinceridade de um argentino quando discursa em nome da fraternidade comercial e do respeito mútuo entre os povos do Cone Sul, fingindo ignorar que seu país está com a economia destroçada por culpa dos desatinos de seus próprios políticos e que negocia bilateralmente às claras com a União Européia, ignorando os interesses comerciais dos parceiros do bloco. A Argentina parece querer que todos choremos por ela, como Evita Perón, salvando-a de suas desgraças e perdoando suas traições.

Engana-se quem acha que brasileiros e argentinos se odeiam. Nossas divergências vão pouco além do futebol e das rixas de fronteira contadas pelos gaúchos. Ódio mesmo existe entre eles e os uruguaios. Durante a reunião, uma deputada argentina comentou que o sotaque dos brasileiros tentando falar espanhol era melhor que o dos uruguaios. Isso foi o bastante para que a bancada uruguaia passasse a vetar todas as propostas seguintes da Argentina.

Culpa da subserviência tupiniquim que nossos deputados tentem ser gentis mostrando boa-vontade de falar espanhol. Nenhum dos gringos tenta falar português, a não ser nos cumprimentos informais. Reza uma regra da diplomacia que, formalmente, cada representante nacional fala sua própria língua, para evitar equívocos. E o espanhol não é assim tão parecido com o português. Orçamento, para eles, é presupuesto, e esgotoé alcantarillado.

O atroz portunhol é mais um tropeço nos entendimentos supranacionais para a formação do Mercosul. A União Européia, que fala uma dezena de línguas e mantinha uma dúzia de moedas, teve menos problemas. O processo de unificação europeu, iniciado há 50 anos, baseou-se em dois aspectos subseqüentes: o da expertise, em que os especialistas analisam todos os aspectos favoráveis e desfavoráveis e os expõem para as lideranças até formar uma consciência supranacional, e o do direito, em que as normas são aplicadas para valer depois que as decisões são tomadas. No Mercosul, metade das normas sequer foram internalizadas pelos representantes políticos e qualquer um se sente no direito de atropelá-las.

O processo de integração idealizado para o Mercosul só terá chance de deslanchar quando uma nova geração de políticos com visão internacional for eleita para substituir os provincianos/nacionalistas de agora. Eles vão precisar de muito treinamento para evitar as chacotas transfronteiriças de hoje e mostrar seriedade e compromisso com as causas comuns a todos os países.

Pelo menos para uma coisa serviu a reunião dos presidentes latino-americanos: os 108 quilômetros da estrada que liga Ouro Preto a Belo Horizonte foram recapeados, pintados e sinalizados em apenas 10 dias, uma proeza para o inoperante DNIT e uma maquilagem para que os presidentes estrangeiros não comprovassem que a rodovia era a própria alegoria do Mercosul: abandonada, esburacada e desanimadora como qualquer sonho terceiromundista.

 

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UM BRASIL QUE NÃO CONHECEMOS !!! 

Segue abaixo o relato de uma pessoa conhecida e séria, que passou recentemente em um concurso público federal e foi trabalhar em Roraima. Trata-se de um Brasil que a gente não conhece.

As duas semanas em Manaus foram interessantes para conhecer um Brasil um pouco diferente, mas chegando em Boa Vista (RR) não pude resistir a fazer um relato das coisas que tenho visto e escutado por aqui. Conversei com algumas pessoas nesses três dias, desde engenheiros até pessoas com um mínimo de instrução. Para começar o mais difícil de encontrar por aqui é roraimense, para falar a verdade, acho que a proporção é de um roraimense para cada 10 pessoas é bem razoável, tem gaúcho, carioca, cearense, amazonense, piauiense, maranhense e por aí vai. Portanto falta uma identidade com a terra.

Aqui não existem muitos meios de sobrevivência, ou a pessoa é funcionária pública, e aqui quase todo mundo é, pois em Boa Vista se concentram todos os órgãos federais e estaduais de Roraima, além da prefeitura é claro. Se não for funcionário público a pessoa trabalha no comércio local ou recebe ajuda de Programas do governo. Não existe indústria de qualquer tipo. Pouco mais de 70% do Território roraimenseé demarcado como reserva indígena, portanto restam apenas 30%, descontando-se os rios e as terras improdutivas que são  muitas, para se cultivar a terra ou para a localização das próprias cidades.

Na única rodovia que existe em direção ao Brasil (liga Boa Vista a Manaus, cerca de 800 km) existe um trecho de  aproximadamente 200 km reserva indígena Waimiri Atroari) por onde você só passa entre 6:00 da manhã e 6:00 da tarde, nas outras 12 horas a rodovia é fechada pelos índios (com autorização  da FUNAI e dos americanos) para que os  mesmos não sejam incomodados. Detalhe: você não passa se for brasileiro, o acessoé livre aos americanos, europeus e japoneses. Desses 70% de território indígena, diria que em 90% dele ninguém entra sem uma grande burocracia e autorização da FUNAI.Detalhe: Americanos entram na hora que quiserem, se você não tem uma autorização da FUNAI mas tem dos americanos então você pode entrar. A maioria dos índios fala a língua nativa além do inglês ou francês, mas a maioria não sabe falar português.

Dizem que é comum na entrada de algumas reservas encontrarem-se hasteadas bandeiras americanas ou inglesas.É comum se encontrar por aqui americano tipo nerds com cara de quem não quer nada, que veio caçar borboleta e joaninha e catalogá-las, mas no final das contas  pasme, se você quiser montar uma empresa para exportar  plantas e frutas típicas como cupuaçu, açaí camu-camu etc., medicinais, ou componentes  naturais para fabricação de remédios, pode se preparar para  pagar "royalties" para empresas japonesas e americanas que já  patentearam a  maioria dos produtos típicos da Amazônia...

Por três vezes repeti a seguinte frase após ouvir tais relatos:
É os americanos vão acabar tomando a Amazônia e em todas elas ouvi a mesma resposta em palavras diferentes. Vou reproduzir a resposta de  uma senhora simples que vendia suco e água na rodovia próximo de Mucajaí: "Irão não minha filha, tu não sabe, mas tudo aqui já é deles, eles comandam tudo, você não entra em lugar nenhum porque eles não deixam. Quando acabar essa guerra aí eles virão pra cá, e vão fazer o que fizeram no Iraque quando determinaram uma faixa para os curdos onde iraquiano não entra, aqui vai ser a mesma coisa". A dona é bem informada não? O pior é que segundo a ONU o conceito de nação é um conceito de soberania e as áreas demarcadas têm o nome de nação indígena. O que pode levar os americanos a alegarem que estarão libertando os povos indígenas. Fiquei sabendo que os americanos já estão construindo uma grande base militar na Colômbia, bem próximo da fronteira com o Brasil  numa parceria com o governo colombiano com o pseudo bjetivos de combater o  narcotráfico. Por falar em narcotráfico, aqui é rota de distribuição, pois essa mãe chamada Brasil mantém suas fronteiras abertas e aqui tem Estrada para as Guianas e Venezuela. Nenhuma bagagem de estrangeiro é fiscalizada, principalmente se for americano, europeu ou japonês, (isso pode causar  um  incidente diplomático)... Dizem que tem muito colombiano traficante virando venezuelano, pois na Venezuela é muitofácil comprar a cidadania venezuelana por cerca de 200 dólares.

Pergunto inocentemente às pessoas; porque os americanos querem tanto proteger os índios. A resposta é absolutamente a mesma: porque as terras indígenas além das riquezas animais e vegetais, da abundância de água são extremamente ricas em ouro (encontram-se pepitas que chegam a ser pesadas em quilos), diamante, outras pedras preciosas, minério e nas reservas norte de Roraima e Amazonas, ricas em PETRÓLEO. Parece que as pessoas contam essas coisas como que num grito de Socorro a alguém que é do sul, como se eu pudesse dizer isso ao presidente ou a alguma  autoridade do sul que vá fazer alguma coisa.

É pessoal, saio daqui com a  quase certeza de que em breve o Brasil irá diminuir de tamanho.

Um grande abraço a todos. Será que podemos fazer alguma coisa? Acho que  sim.

Mara Silvia Alexandre Costa
Depto de Biologia Cel. Mol. Bioag. Patog.
FMRP - USP

 

Em debate : o pedestre acuado.

"o automóvel é propriedade particular
que circula em espaço público"

(Ricardo Moretzsohn)

O Dr. Ricardo Moretzsohn é presidente do Conselho Federal de Psicologia e coodenador do 6 Congresso Brasileiro de Psicologia no Trânsito (Conpsitran), cujo objetivo é colocar o ser humano como foco principal da política nacional de trânsito e discutir a conturbada relação entre espaço público e privado.

Esses foram os principais objetivos do evento, que ocorreu de 10 a 13 de novembro em parceria com a Universidade Católica do Mato Grosso, em Campo grande.

De lá sairá a Carta de Campo Grande, para os Detrans, Denatrans, Contrans e secretarias municipais de trânsito do país. Vale lembrar que os dados da Organização Mundial de Saúde registram 40 mil mortes, no Brasil, das quais 3000 são crianças na idade escolar .


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