ARTES MARCIAIS
@Márcio Metzker
A coluna que já chega dando uma "voadora".
Efeito Severino: nepotismo no Miss Brasil 2005
Depois de cobrir o Miss Minas, não pude deixar
de me interessar pelo Miss Brasil, marcado para três
semanas depois. Pelo terceiro ano consecutivo, haveria
transmissão pela TV Bandeirantes, e a organização
prometia um evento exemplar. No entanto, a depuração
do concurso, prometida pela agência Gaeta, tirando
suas breguices e atualizando seus conceitos, foi um tiro
que saiu pela culatra nesta edição de 2005.
De tanto ser organizado pelos estilistas do São
Paulo Fashion Week, o evento se transformou literalmente
em desfile de moda, no mundinho fechado da fauna fashion.
No espaço restrito do Copacabana Palace, sentavam-se
pouco mais de duzentas madames de longo e cavalheiros
de smoking, que reagiam com aplausos comedidos às
candidatas em desfile. Faltou torcida, entusiasmo, frenesi,
como vimos no ginásio divinopolitano onde ocorreu
o concurso mineiro. A elitização é um
mal tão grave para a saúde do concurso
quanto a escassez de mídia.
Não cheguei a contar exatamente, mas no júri
havia umas 15 mulheres e apenas cinco homens, dos quais
apenas três pareciam heterossexuais. Este é outro
erro grave. Quem escolhe mulher tem que ser majoritariamente
homem, e homem com níveis normais de testosterona,
capaz de privilegiar mulheres sedutoras, femininas, saudáveis,
de alta classe, com quem se casariam se pudessem. Faltou
jogador de futebol, cantor de pagode, tenista, campeão
de boxe e outras categorias com fama de virilidade.
Entre as 15 juradas, contei pelo menos quatro misses:
a diva Martha Rocha (Miss Brasil 1954), a vedete Adalgisa
Colombo (Miss Brasil 1958), a Miss Universo Marta Vasconcellos
(1968) e a socialite Leila Schuster (Miss Brasil 1993).
Creio que essas quatro sejam competentes para escolher
misses, porque sabem por experiência própria
do que se trata, muito embora possam ter razões
para não escolher ninguém que possa ameaçar
o brilho delas no futuro. Depois ouvi dizer que Ariane
Colombo, que conquistou um imerecido 3º lugar, era
sobrinha de Adalgisa Colombo. Era só o que faltava:
nepotismo até em concurso de miss. Severino está fazendo
escola.
Mas as produtoras de moda presentes, por sua vez, haveriam
de escolher misses pelo mesmo critério que escolhem
modelos: magérrimas, exóticas, pernaltas,
emburradas. E a tal de Astrid, da TV Bandeirantes, já provou,
nos dois últimos concursos de Miss Universo, que
não consegue nem mesmo acertar três nomes
numa lista de dez prováveis finalistas. Astrid
deve ter ido para o júri como prêmio de
consolação porque Nayla Micherif assumiu
o papel de apresentadora. E deve ter rogado praga, porque
deu branco na Micherif pelo menos três vezes.
O evento foi chocho, morno, até por falta de
dinâmica e tarimba da ex-miss Brasil. Faltou-lhe
texto. As misses entravam para seu desfile individual
e Nayla não tinha sua idade, altura, peso e escolaridade.
O conjunto Bossacucanova, que havia começado bem
nos hits da bossa-nova, começou a atravessar do
meio para o fim e foi duro de agüentar. Improviso é triste
num evento de gala.
A transmissão também foi caótica,
com excesso de cortes errados de mesa. O diretor quis
dar uma edição de videoclip à passarela
e acabou matando os desfiles. Ficamos sem saber se alguma
das misses tinha nádegas bonitas - detalhe crucial
para avaliação masculina da beleza -, porque
sempre cortavam para o plano geral quando elas se viravam.
Teve miss que desfilou o tempo todo sem que aparecesse
o insert com seu nome e o Estado que representava.
Concurso de miss ou desfile de moda?
Fiquei estupefato quando as misses voltaram à passarela
para fazer um desfile de moda de inverno da griffe Colcci,
todas com aquelas maquilagens sombrias e a cara amarrada
como se tivessem acabado de apanhar do pai. Na verdade,
devem ter feito essa cara ao saber que o contrato as
obrigava a desfilar para a griffe sem cachê.
Depois do desfile de biquíni, em que honestamente
não deu pra avaliar os corpos das candidatas,
anunciou-se que as misses iriam entrar em traje de gala,
e o que vimos foram túnicas soltas sobre os corpos
das moças, como a que as vestais deviam vestir
nos templos da Grécia Antiga. Provavelmente o
estilista que concebeu aqueles trajes viajou na maionese
da Olimpíada de Atenas ou pelo menos no molho à bolonhesa
da Mitologia Romana. Minha amiga Marina Rêgo mandou
mensagem de Brasília criticando os trajes como "roupões
de olimpo goiano". Tatiane Alves disse que pareciam
camisolões. Talvez tenha sido por sono e não
por labirintite que a Miss Piauí desabou na passarela.
Vestidas com esses trapos, as dez finalistas foram apartadas
do resto do rebanho. Daniele Abrantes, a brejeira baiana,
foi eleita pelas colegas como Miss Simpatia. A sorocabana
de São Paulo, que minutos antes tinha desmaiado
no camarim por queda de pressão, foi escolhida
pela internet e pelos telefonemas. As nove escolhidas
pelos jurados foram Rio de Janeiro, Tocantins, Bahia,
Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Paraná,
Minas Gerais, Santa Catarina e Amazonas.
O ponto mais baixo do concurso, como sempre, foi aquele
momento em que as finalistas tiveram que abrir a boca
para discorrer sobre o Papa João Paulo II. Aí elas
quebram o encanto com que nos haviam envolvido. A pobre
Miss Sâo Paulo foi a primeira. Deu branco, entupigaitou
e gaguejou miseravelmente, esquecendo o texto. E olhem
que a moça é fonoaudióloga. A risonha
e simpática baiana disse que o papa era um icône
da sua geração. Na certa, quem passou o
texto para ela esqueceu de acentuar. Outra disse que
o Pontífice deveria ser escolhido como "homem
do ano". A miss Espírito Santo detonou com
as idéias retrógradas de Woytila sobre
camisinha, aborto e homossexualidade. Muitas outras misses
se revelaram "pastéis de vento", mas
Tatiane Alves se saiu bem, como a paranaense Patrícia
Reginato. Mostraram voz agradável, recheio e graça
para dizer seus textos.
Para mim, o rosto plácido e o sorriso charmoso
de Tatiane Alves não tinham rivais à altura
naquela turma. Se quisessem buscar alguém mais
bonita que ela, teriam que procurar no Miss Universo.
Com muito cuidado para não parecer bairrista,
eu a coloquei em minha lista pessoal de favoritas, junto à baiana
e à catarinense. Mas os jurados deram à mineira
o 5º lugar. Quando ela se adiantou, dava para perceber
que seu sorriso ficou congelado de espanto pela classificação.
Tatiane retirou-se do palco e não voltou para
a celebração do resultado e as paparicações
costumeiras. Foi pena. Devia perfilar-se com as outras
quatro para que o público pudesse comparar e comprovar
a injustiça.
Em 4º, ficou Tocantins. Em 3º, ficou Ariane
Colombo, do Espírito Santo. Em 2º, Patrícia
Reginato, do Paraná, e a nova Miss Brasil é a
loura Karina Beduschi, de Santa Catarina. A vencedora
ganha um Renault 206 cheio de chocolates da Kopenhagen
e jóias de um certo Ricardo Vieira. Vai representar
o Brasil no Miss Universo, dia 30 de maio, em Bangkok,
Tailândia.